O Primeiro Mandamento

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O Primeiro Mandamento

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De: Edmundo Teixeira  –  Serviço Rosacruz/Março de 1976

Eis o decálogo dado a Moisés na “montanha”:

  1. Não terás outros deuses diante de mim;
  2. Não fáras para ti imagem de escultura nem alguma semelhança do que tenho criado. Não te encurvarás a elas nem as servirás;
  3. Não tomaras o nome do Senhor teu Deus em vão.
  4. Lembra-te do dia do sábado e santifica-o, porque é o dia do Senhor teu Deus;
  5. Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os dias na terra que o Senhor teu Deus te deu;
  6. Não matarás;
  7. Não adulterarás;
  8. Não furtarás;
  9. Não dirás falso testemunho contra o teu próximo; e
  10. Não cobiçarás coisa alguma de teu próximo: nem a casa, nem a mulher, nem o servo ou a serva, nem o boi ou jumento.

Este decálogo figura em Êxodo, 20:3-17, quer na Bí­blia traduzida por João Ferreira de Almeida (usada pelas igrejas evangélicas), quer na vulgata, anotada pelo padre Matos Soares (adotada pelos católicos).

Notem que a Lei, como as normas dos homens, em sua maioria se constituem de proibições. Por que? Por­que a Lei é uma súmula do que devemos observar obri­gatoriamente . O resto fica por conta do livre arbítrio de cada indivíduo e seu modo de ser.

O primeiro mandamento é básico. Deixa subenten­der a onipresença de Deus. De fato, Ele está infuso em toda a Sua Criação e além dela, no misterioso Caos. Manifesta-se de forma diferente, conforme o grau de consciência do reino ou do indivíduo em evolução.

Quanto a nós, a Bíblia é claríssima: “Não sabeis que sois o santuário de Deus que em vós habita?” (I Cor. 3:16). “O Reino de Deus está dentro de vós” (Lc. 17:21). Apesar destas e outras afirmações da Bíblia, a humani­dade o tem buscado fora de si, num céu distante e ina­cessível, à semelhança de “sir Launfal” em busca do Graal.

Se o tivesse buscado no único lugar em que pode e deve ser encontrado, por certo já o teria realizado nestes vinte séculos. Mas a evolução é lenta mesmo. Estamos num progressivo acordar e ressuscitar para a realidade de nós mesmos e de Deus: “Desperta tu que dormes, levanta-te dentre os mortos e o Cristo te alumiará” (Paulo).

Eis a mensagem do primeiro mandamento: “Não terás outros deuses diante de mim”: nem riquezas, nem poder, nem amor, nem fama. Ninguém pode servir a dois senhores: ou servimos a Deus ou a Mamom — o deus da cobiça. E isto não quer significar que devemos ser materialmente pobres; que recusemos cargos in­fluentes; que fujamos da fama; que nos afastemos do amor. Busquemos o sentido na intenção, no íntimo: es­tarmos desapegados; exercermos a administração dos talentos que Deus nos põe à disposição, como meios evo­lutivos que não nos pertencem mas que devemos geren­ciar zelosamente. A pobreza material não é virtude; antes, na maior parte das vezes é sinal de omissão, irres­ponsabilidade ou má fé em vidas anteriores. Virtude é ter e não possuir; é trabalhar como um ambicioso e man­ter-se desapegado dos frutos, não obstante administrar o melhor possível para o Senhor, a quem tudo atribui.

A ausência de poder ou de fama pode ser sinônimo de egoismo, de comodismo, de restrição de destino, etc., no exercício do poder e da fama em vidas anteriores.

A carência de amor é quase sempre uma resposta do desamor.

Mas é feliz quem vê em tudo o provimento de Deus, no atendimento perfeito à necessidade interna e coletiva. E, sabendo que nada nos pertence, buscar devolver os bens acrescidos de nossa administração, à Fonte que os jorrou. Tal é o sentido da evolução na Terra.

De fato, não há mal em nada, mas no mau uso que fazemos de tudo.

Max Heindel diz que os probacionistas são os que tomaram consigo mesmos uma obrigação definida, pela qual o eu pessoal (personalidade) compromete-se a amar, honrar e obedecer ao EU verdadeiro e Superior, vivendo a uma vida de serviço, como meio de se Aproximarem do véu e atingirem a realização consciente do Deus interior”.

Notem que esse compromisso refere diretamente ao primeiro mandamento: “não terás outros deuses (perso­nalidade) além do Eu verdadeiro e Superior. É o mesmo foi dito em Mateus 6:33: “Busca em primeiro lugar o reino de Deus (que está dentro de ti) e teu ajustamento pois tudo o mais te virá por acréscimo”. Buscar o interno é o conhecer a si mesmo; ajustar-se a Ele; é o compromisso de viver segundo as Leis do Ser (reto pensar, reto sentir e reto agir) — o correto modo de amar, honrar e obedecer ao Eu verdadeiro e Superior, manifestado pelo mesmo amar, honrar e obedecer ao Di­vino de cada irmão, cujos defeitos devemos esquecer, buscando-lhe a divina Essência — pois isto constitui a verdadeira fraternidade.

A personalidade está atualmente ativa, comandando nossa vida de forma egoísta e contraditória. Deve tor­nar-se passiva, serva fiel do Espírito. Para chegarmos a esse ponto é mister exercitar paciente e perseveramente a observação de si; praticarmos o discernimento; apren­dermos a não nos identificarmos com as manobras sutis da natureza inferior, em seus constantes esforços de jus­tificação. Sobretudo, a prática da meditação, ficando como testemunhas da atividade interior. Ainda não sa­bemos silenciar. Podemos estar calados e, ao mesmo tempo, numa intensa atividade interior. Silenciar é aquietar internamente para que “a pequenina e silencio­sa voz” se faça ouvir e nos intua. É a promessa do Sal­mo 91: “Aquele que habita o esconderijo secreto (inter­no) do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará”. É o convite do salmo 46:10: “Aquieta-te e sabe: eu sou Deus”.

Atentemos à exortação do primeiro mandamento e busquemos a única fonte de nosso bem: o EU SOU em nós.

O método Rosacruz procura desenvolver, desde o princípio, no Aspirante, a confiança em si (no Eu supe­rior) ; o domínio próprio (pela não identificação com a natureza inferior); o esclarecimento a respeito de sua própria natureza intrínseca e de Deus que o criou; para que cada um se torne um pilar no templo universal de Deus e se coloque em condições de servir de forma es­clarecida, amorosa e altruísta o seu próximo, ajudan­do-o a atingir as mesmas desejáveis condições.

Somos o Melquisedeque, sem genealogia, a quem a personalidade (Abraão) deve render seu tributo e despojos da luta diária, para que se cumpra mais rapida­mente nossa realização evolutiva. Esta soberania do Eu verdadeiro e superior se exerce pela união da mente e do coração, que geram a sabedoria. E se não nos deve­mos submeter aos desmandos da natureza inferior, igualmente não devemos ensejar qualquer domínio ex­terno pela mediunidade, hipnose ou outra qualquer for­ma de alienação, pois seria contrário ao primeiro man­damento .

A personalidade não ama. Ela se caracteriza pela busca de retribuição: ama para ser amada; ama quando é amada. Não compreende que o amor é a própria re­compensa: o dar gera o receber mas não depende do receber para viver no amor, porque é Deus quem ama através de nós. Buscar a retribuição do amor é um re­clamo da personalidade por aquilo que lhe não perten­ce. A medida em que nos fundimos ao Eu superior va­mos desenvolvendo um autêntico sentido de fraternidade, porque Ele é amor e quem vive em amor vive nEle e Ele nos leva a perceber e Amar o Divino em cada seme­lhante.

A verdadeira liberdade pressupõe a vivência no Es­pírito. Enquanto não alcançamos essa liberdade, fica­mos condicionados pela falsa segurança que nos leva ao apoio nas coisas externas. Ora, ter outros deuses signi­fica também acreditarmos nos falsos valores e deixar que eles nos possuam, em vez de os possuirmos.

Se usamos todos os valores externos e internos como meios evolutivos provisórios, a serviço do Eu superior, tornamos impossível qualquer interferência negativa em nossa harmonia básica ou no justo usufruto de uma vida plena, harmoniosa, aqui e agora mesmo.

Isto requer preparo interno, através de método ade­quado. A raiz de todo o mal está na identificação com a personalidade; está no ignorante modo de conduzir nossas faculdades, A chave da libertação está no conhe­cimento de si e no retorno da Presença e do Poder inter­nos, esse espírito da verdade que o Cristo nos prometeu.

Não há, pois, nenhuma outra presença ou poder além da Consciência Universal que se expressa individual­mente como uma consciência individual. Cada um de nós existe como um Infinito dentro de outros Infinitos. Funcionamos como Consciência Espiritual individualiza­da. Não somos o corpo, nem as emoções, nem os hábitos, nem a mente. Somos o criador e dono deles. Por isso dizemos: meu corpo, minhas emoções, meus hábitos, mi­nha mente.

 A posse não pode ser maior que o possuidor. A posse não pode dominar o possuidor.

Eis o significado do primeiro mandamento: há so­mente um poder. Temer o que? “Se Deus é por mim, quem é contra mim”? Odiar por que? Quem odeia é a personalidade e não o Eu divino, que é amor. Quem ama ao Divino ama também a seu irmão. Temer, odiar, é ne­gação do único Poder. Se aprofundarmos este sentida pela meditação, veremos que o bem e o mal existem apenas no campo da personalidade, como um nível pro­visório de consciência, que pode e deve ser transcendi­do. Aí chegaremos a um ponto em que não haverá um bem superando o mal — porque simplesmente existe um único Poder. O que parece mal é um esforço do Bem para devolver a harmonia. Portanto, é um convite de regeneração, uma advertência amorosa e sábia do que devemos corrigir.

Toda a grandiosidade do Cristo estava em Sua excelsa condição de Servo perfeito: “Eu de mim mesmo nada posso, mas tudo posso nAquele que me fortalece; o Pai em mim é Quem faz as obras” Quando os discípu­los Lhe perguntaram do Pai, Ele esclareceu: “Quem vê a Mim, vê ao Pai que me enviou”. Sua personalidade era um canal perfeito.

Paulo compreendeu e aproveitou esta lição. Ele dis­se: “Quando sou fraco, quando sou nada, aí é que sou for­te e sou tudo”. Ele sabia que a personalidade deveria tor­nar-se passiva e fiel serva do Eu superior.

Quando Cristo foi a Nazaré não pôde curar muitas pessoas porque se detiveram na pessoa dEle: “Não é este o filho de José, o carpinteiro?” Mas Pedro, ilumi­nado pelo Espírito Santo (mente abstrata) disse-Lhe: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”; ao que o Mestre lhe responde: “Bem-aventurado és tu, Simão, porque não foram os olhos que te o revelaram”. Essa é, também, a verdadeira identidade do ser humano, que chamamos homem ou mulher.

É certo que devemos ser prudentes, porque a maio­ria das pessoas vive condicionada à falsa personalidade com sua violência e egoísmo. Mas isto não nos deve dis­tanciar da realidade essencial das criaturas, confiando no Bem imanente.

Ao mesmo tempo, a conscientização da verdadeira idcntidade, ou soja, do Deus individualizado como eu ou como tu, não nos dissolve o sentido de individualidade nem exige que matemos nossa personalidade, como suge­rem algumas filosofias.

Ao contrário, a personalidade (constituída pela mente concreta, corpo de desejos, cor­po físico (etérico e denso) é indispensável à nossa evo­lução. Através dela é que haurimos experiências e dina­mizamos as faculdades latentes, convertendo-as em Alma ou Consciência Espiritual.

A conscientização da verda­deira identidade consiste numa inversão do atual materialismo, situando o homem como um Eu divino a ma­nipular uma personalidade — e não uma personalidade à parte e independente de Deus. Não imaginemos que ocorra um vácuo; ao contrário, há aumento de consciên­cia própria nessa transição gradativa da persona ao Eu real. Não se trata de nos perdermos no Todo a que nos confundimos. Éramos inconscientes de nós mesmos, como Centelhas, quando iniciamos a evolução no estado de consciência mineral. Depois disso, fomos desenvol­vendo a consciência até o estado de vigília consciente atual, rumo a oniconsciência que nos espera. Deus se exprime como individualidades nEle separadas, cujas consciências se formam pela dinamização das faculda­des divinas herdadas. Pela eternidade afora seremos mantidos na própria individualidade, pelo exercício da epigênese. Somos notas próprias, na sinfonia universal. Importante é. que estejamos afinados ao Divino Concerto.

Afirmar a Deidade interna é definir sua identidade espiritual, pela união ao Eu superior. Não deve ser con­fundida com a afirmação da personalidade que a maio­ria busca para o êxito mundano, em apoio na persona ativa. O verdadeiro êxito parte de dentro. Não há outra autoridade, senão aquela que nos vem de dentro e de cima.

O único modo de vivenciarmos esta profunda verda­de é o estudo das verdades espirituais, a prática dos exercícios recomendados e sua expressão em nossa vida diária. Eles nos guindarão a níveis gradativamente mais elevados e claros. Então compreenderemos a afirmação do Batista (persona) referindo-se ao Cristo (Eu supe­rior) : “É preciso que eu diminua e Ele cresça”. Só assim nos converteremos em valioso e fiel precursor do Eu real neste mundo, tendo-o como Único Deus, em nós e nos outros.

Tudo o que nos acontece é retorno da projeção de estados de consciência —como pensamentos, emoções e atos.

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